De protestantes a fundamentalistas, neo-carismáticos e neo-liberais a redefinição do “ser evangélico” no Brasil - Franklin Ferreira.

Um estudo histórico-teológico sobre a chegada dos evangélicos no Brasil, com especial atenção para as peculiares transformações que o protestantismo sofreu no país, especialmente em meio às igrejas históricas. Ao final, será apresentada uma alternativa à situação atual, um resgate do significado de “ser evangélico” com base nos avivamentos ocorridos na Inglaterra nos séculos XVII e XVIII, com seus legados intelectual, eclesial e social.

Ricardo Mariano: “Os evangélicos, segundo o IBGE, eram apenas 2,6% da população brasileira em 1940. Avançaram para 3,4% em 1950, 4% em 1960, 5,2% em 1970, 6,6% em 1980, 9% em 1991 e 15,4% em 2000, ano em que somavam 26.184.941 de adeptos. A expansão evangélica, já elevada nas décadas anteriores, acelerou-se muito no último decênio do século XX. Entre 1991 e 2000, pentecostais e protestantes (os grupos denominacionais que compõem a religião evangélica) cresceram anualmente 8,9% e 5,2%, respectivamente. No período, os pentecostais saltaram de 8.768.929 para 17.617.307 adeptos (ou de 5,6% para 10,4% da população), ao passo que os protestantes históricos passaram de 4.388.310 para 6.939.765 (de 3% para 4,1%). Atualmente, o Brasil abriga mais de 30 milhões de evangélicos, dois terços dos quais pentecostais, o que consolidou de vez o pentecostalismo na posição de segundo maior grupo religioso do país”.

1. Histórico da chegada dos protestantes no Brasil

Protestantismo de imigração : Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e a Igreja Evangélica Luterana do Brasil (Sínodo de Missouri).

Protestantismo de missão : Há três denominações congregacionais organizadas no Brasil, sendo a principal, a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil. Existem 17 denominações contadas como presbiterianas e reformadas em terras brasileiras, sendo a mais importante a Igreja Presbiteriana do Brasil . Existem nove denominações batistas no Brasil, sendo o principal grupo a Convenção Batista Brasileira . Existem quatro denominações metodistas, sendo a mais importante a Igreja Metodista do Brasil .

Pentecostais clássicos : Estes grupos surgiram nos Estados Unidos, com os movimentos de santidade metodistas, que deram início às chamadas “igrejas de santidade”. Vinte e três novas denominações foram fundadas entre 1893-1900, defendendo a idéia de perfeição cristã, em que o crente, se recebesse uma “segunda bênção” atingiria um estágio na vida cristã em que não mais seria dominado pelo pecado. Depois, estas igrejas se tornaram pentecostais. Na década de 1910 este movimento chegou ao Brasil, com a Congregação Cristã e com a Assembléia de Deus. As ênfases principais dos pentecostais clássicos são: o batismo no Espírito Santo, dons carismáticos e miraculosos, principalmente o “dom de línguas”, e uma liderança centralizada.

2. Influências dominantes

Fundamentalismo : Desde o final do século XIX, a igreja evangélica buscou responder aos ataques que a fé cristã estava sofrendo. Contra o liberalismo teológico europeu, um grupo de eruditos evangélicos ingleses e americanos deu sua resposta nos livros conhecidos como “Os fundamentos”. Eles reafirmaram as doutrinas da inspiração das Escrituras, do criacionismo (contra o evolucionismo), do nascimento virginal de Cristo, de sua morte salvadora e ressurreição corporal e seu retorno final em glória – com uma forte ênfase em missões e evangelização. A expressão “fundamentalista” vem daí, mas com o passar do tempo, fundamentalista passou a ser usada com conotações pejorativas de “divisor”, “intolerante”, “anti-intelectual” e “despreocupado com os problemas sociais”, em grande parte, por causa do radicalismo das gerações evangélicas que se seguiram.

Desdobramentos do pentecostalismo clássico : Em meados da década de 50 surgiram os pentecostais de “cura divina” , e os principais representantes deste movimento no Brasil foram a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), O Brasil Para Cristo – a primeira a ser fundada por brasileiros (1955), Casa da Bênção (1964) , e, especialmente, a Igreja Deus É Amor (1962). Diferente dos pentecostais clássicos, além de enfatizarem as curas divinas, estes novos grupos passaram a praticar o exorcismo e a usar uma música mais popular (e com ritmos nacionais!) durante cultos informais.

Outro grupo seriam as igrejas carismáticas , que começaram em meados de 1960. O movimento se espalhou rapidamente entre luteranos, presbiterianos, metodistas e batistas. Eles mantiveram as mesmas ênfases dos pentecostais clássicos , e a diferença fundamental está em que estes saíram das igrejas tradicionais e fundaram as suas, e aqueles, ligados às igrejas renovadas , permaneceram, na maioria, em suas igrejas, para influenciá-las.

O quarto grupo, os chamados neo-pentecostais, surgiu no final da década de 1970 e início de 1980. Suas principais ênfases são os sinais e maravilhas, com fortes elementos mágicos, confrontos com poderes demoníacos (exorcismos) e manifestações emocionais fortes, teologia da prosperidade e a idéia de “guerra espiritual”. Seu principal representante no Brasil é a Igreja Universal do Reino de Deus (1977), a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) e a Igreja Evangélica Cristo Vive (1980) . A ênfase destas últimas igrejas recai principalmente no forte uso dos meios de comunicação. O “dom de línguas” perdeu sua importância nas igrejas neo-pentecostais . Nos últimos anos, relatos dos fiéis falam de “sopro” do Espírito, “desmaios” pelo poder do Espírito, “arrebatamentos” (que envolvem viagens ao céu e ao inferno), receber “dentes de ouro” e o “dom do riso”.

As igrejas pentecostais de “cura divina” e as igrejas carismáticas seguem, umas mais que as outras, os principais elementos doutrinários do pentecostalismo clássico . Os neo-pentecostais apresentam as maiores diferenças dentro do mundo pentecostal. É importante lembrar que esta classificação nem sempre é tão nítida, pois o pentecostalismo clássico e aquilo que chamamos neo-pentecostalismo acabaram por influenciar-se mutuamente. Na verdade, o movimento pentecostal é um universo de contrastes, e seus grupos vão desde aqueles que proíbem ver TV, tomar banho de praia, gostar de futebol e dormir despido, até aos que possuem entre seus membros jogadores de futebol profissional, cantores e modelos famosos, além da música estilo rock, como nas Comunidades Evangélicas e Renascer em Cristo. Há mais de 450 grupos pentecostais diferentes no Brasil, contudo, pentecostalismo clássico e neo-pentecostalismo não são a mesma coisa. Apesar de possuírem o mesmo tronco histórico, têm diferentes ênfases teológicas e usam diferentes estratégias para sua atuação no mundo e junto aos seus fiéis.

Liberalismos teológicos : A partir das novas tendências teológicas liberais dos séculos XVIII e XIX, a fé cristã ortodoxa não seria mais a mesma. Os fundamentos da fé cristã seriam atacados – as doutrinas da criação, da inspiração das Escrituras, do nascimento virginal de Cristo, de sua morte salvadora e ressurreição e seu retorno final, ou foram abertamente questionadas ou claramente negadas. Este movimento é multifacetado e fragmentado: ora se enfatiza a transcendência divina, ora a imanência divina, mas sempre compartilhando um feroz anti-sobrenaturalismo. Diferentes ênfases liberais chegaram às denominações presbiteriana (década de 50) e batista (década de 60-70), trazido por missionários americanos ou por brasileiros que estudaram nos Estados Unidos, mas também na Europa. Interessante que esta chegada não é documentada em nenhuma das histórias oficiais destas denominações – apesar de seu impacto tanto nas academias teológicas como nas igrejas locais. Mais recentemente o liberalismo chegou às igrejas pentecostais e carismáticas, por meio de escolas teológicas ligadas ou a igrejas locais ou às denominações.

Modernidade : Toda a ênfase é relacional. Abriu-se mão da noção de identidade – de pessoas ou de conceitos. As palavras-chaves são: mudança, novidade, fugacidade. Prefere-se o descontínuo ao contínuo. O amor é politicamente correto, inclusivo, e teme a verdade porque a verdade ‘exclui' ao determinar posturas certas e posturas erradas. Assim, há um gosto pela literatura poética, pela contradição, pela incerteza, por tudo que é subjetivo e fluido, e um horror absoluto a tudo que é lógico, racional, objetivo – que são desprezados como “falta de amor”.

Diante do surgimento de tantas denominações novas no Brasil, com uma pobreza teológica e ética evidente, necessitamos definir, com urgência, o que é ser “evangélico”. A igreja brasileira tem demonstrado, nos últimos anos, ser vulnerável e aberta a novas tendências, como a infame “teologia da prosperidade” ou às novas vertentes dos liberalismos teológicos oriundos da Europa e Estados Unidos.

3. Definindo o 'ser evangélico'

As origens do movimento evangélico: a Reforma protestante, o puritanismo e o metodismo. Estes três movimentos definem o ‘ser evangélico'.

Em 1645, Oliver Cromwell convocou uma junta de teólogos para expor o que deveriam ser os pontos fundamentais do cristianismo. Uma comissão, da qual John Owen , o maior teólogo puritano, fazia parte, produziu dezesseis pequenos artigos que, eles entendiam, declaravam as verdades centrais da fé cristã. Eles afirmaram a inspiração e autoridade das Escrituras; que Deus se revela como o Pai, o Filho e o Espírito Santo, criador, governador e juiz do mundo; que Jesus Cristo é o verdadeiro Deus e é também verdadeiro homem, a pessoa única; que é nosso Redentor, que pagou um resgate “pelos nossos pecados e levando-os sobre Si, satisfez a justiça divina quanto a eles”. Afirmaram também a crucificação, ressurreição e ascensão de Cristo, e que, “por natureza, todos os homens estavam mortos em ofensas e pecados, e nenhum homem pode ser salvo, a menos que nasça de novo, arrependa-se e creia”. Confessaram também que somos justificados e salvos pela graça e pela fé em Jesus Cristo , e não por obras. As doutrinas da perseverança na santidade, a liberdade para cultuarmos a Deus “de acordo com a Sua vontade” e a ressurreição de todos os mortos no “dia de juízo a que todos comparecerão, uns para irem para a vida eterna, e outros para a condenação eterna” também foram afirmadas.

Ênfases que definem o ‘ser evangélico':

1. Crença na Bíblia como a Palavra de Deus sem erro.
2. Pecado original e pecados atuais.
3. Ênfase na justificação pela graça e na conversão como obra do Espírito.
4. Centralidade da cruz e da expiação.
5. Conceito denominacional da igreja: as diversas denominações são percebidas como parte da grande igreja.
6. A igreja lutando pela pureza: santificação individual/interna e corporativa/externa.
7. Indivíduos agindo para a reforma da sociedade: abolição da escravatura, fundação de escolas cristãs para os pobres, reforma das prisões, combate à pornografia, realização de missões cristãs no estrangeiro e batalha pela liberdade religiosa.
Greg Wills ( Democratic Religion ): “De fato, quanto mais as igrejas se preocupam com a ordem social, tanto menos exercem a disciplina eclesiástica. De aproximadamente 1850 a 1920, um período de crescente zelo evangélico pela reforma da sociedade, a disciplina na igreja caiu rapidamente. Incluindo desde a abstinência de bebidas alcoólicas até à reforma da observância do dia do Senhor, os evangélicos persuadiram suas comunidades a adotar as normas morais da igreja para a sociedade. Na medida em que os batistas aprenderam a reformar a sociedade em geral, esqueceram-se de como haviam reformado a si mesmos. A disciplina na igreja pressupõe uma dicotomia rígida entre as normas da sociedade e o reino de Deus. Quanto mais os evangélicos purificavam a sociedade, tanto menos sentiam a necessidade de uma disciplina que separava a igreja do mundo”.
8. Busca por avivamento – que é diferente de avivalismo: Jonathan Edwards: “Pode-se observar que, desde a queda do homem até os nossos dias, a obra de redenção, em seus feitos, tem sido realizada principalmente por extraordinárias comunicações do Espírito Santo”.